Trump descarta diálogo e ordena iranianos a tomarem instituições

Foto: Tolga Akmen / EPA
Presidente dos EUA impõe tarifas e promete “ajuda” aos revoltosos que se opõem à República Islâmica. Europeus protestam contra repressão de Teerão
Pressão Os protestos contra a República Islâmica no Irão receberam ontem um apoio internacional reforçado, com Donald Trump a anunciar tarifas a parceiros comerciais dos iranianos e a deixar claro que quer os manifestantes a tomarem o poder. Já os europeus, numa onda de protestos diplomáticos, estão a prometer mais sanções devido à repressão, que poderá ter provocado entre 648 e 12 mil mortes, segundo organizações opositoras de Teerão.
“Patriotas iranianos, continuem a protestar – tomem o controlo das vossas instituições!!!”, escreveu o chefe de Estado norte-americano na plataforma Truth Social. “Guardem os nomes dos assassinos e agressores. Eles pagarão um preço elevado”, acrescentou Trump.
“Cancelei todas as reuniões com as autoridades iranianas até que o massacre sem sentido de manifestantes pare. A ajuda está a caminho”, prometeu o presidente, sem dar pormenores. No domingo, Trump tinha dito que estava a ser planeado um encontro com as autoridades de Teerão, que na segunda-feira destacaram que mantinham contacto com o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff.
O revés nas negociações acontece horas após o líder da Casa Branca ter anunciado que vai impor taxas alfandegárias de 25% aos produtos de países que mantiverem relações comerciais com os iranianos. Segundo a base de dados Trading Economics, os principais parceiros comerciais do Irão são a China, a Turquia, os Emirados Árabes Unidos e o Iraque.
De 648 a 12 mil mortos
Com estimativas de vítimas mortais muito variadas, ainda é difícil ter uma dimensão total da repressão. O último balanço da organização não governamental Iran Human Rights, com sede na Noruega, indicava 648 óbitos, mas a Human Rights Activists News Agency, dos EUA, contabilizava cerca de dois mil (sendo 1850 manifestantes). Já o canal Iran International, com sede no Reino Unido e financiado pelos sauditas, rivais de Teerão, noticiaram que 12 mil pessoas foram mortas nos dias 8 e 9.
O Ministério Público iraniano informou ontem, numa nota citada pela televisão estatal, que um número não especificado de pessoas será acusado de “moharebeh” (“guerra contra Deus”), crime capital no Irão, de acordo com a lei islâmica (sharia). O termo já foi amplamente usado no passado.
A reação internacional contra a repressão incluiu várias nações europeias, como Alemanha, Espanha, França, Itália, Reino Unido e Portugal (caixa ao lado), a chamarem os representantes das embaixadas do Irão nos respetivos países para protestar contra a repressão. “Estamos agora a testemunhar os últimos dias e semanas” do regime dos ayatollahs, disse o chanceler alemão. A presidente da Comissão Europeia, por sua vez, frisou que novas sanções contra Teerão “serão propostas rapidamente”.
Diplomacia lusa chama embaixador do Irão
Portugal chamou o embaixador do Irão, Majid Tafreshi, “para lhe transmitir de viva voz a condenação veemente, já reiteradamente feita nos últimos dias, da repressão violenta das manifestações”, avançou o Ministério dos Negócios Estrangeiros. A reunião serviu para apelar “a que sejam respeitados os direitos das cidadãs e dos cidadãos iranianos”. Além disso, Portugal está disponível para, “no quadro de concertação europeia, reforçar as sanções ao Irão”. Antes de ser chamado, o diplomata disse à agência Lusa que condena a “institucionalização de uma nova política”, concretizada com o instrumento do “uso indevido da força”. Citando como exemplo a Gronelândia, mas também as ameaças à Colômbia e a Cuba, além da ação na Venezuela, Tafreshi advertiu que este processo irá “alastrar-se” se os países, sobretudo os ocidentais, “não tomarem medidas sérias” contra os EUA e Israel.
Em destaque
Bloqueio da internet
Iranianos conseguiram ontem telefonar para o estrangeiro com os telemóveis, mas as mensagens de várias plataformas e a internet seguem sob bloqueio.
Alerta do Catar
O Catar avisou ontem que uma escalada de tensão entre os EUA e o Irão seria “catastrófica” para a região e fora dela. “Por isso, queremos evitá-la ao máximo”, disse um porta-voz da diplomacia de Doha.
ONU condena
“O homicídio de manifestantes pacíficos tem de parar e é inaceitável rotular manifestantes como terroristas para justificar a violência contra eles”, frisou o alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk.