O DeLorean da Cultura: Porto 2001 é festejado com regresso ao futuro

A frase “foi roubada”, como admitiu o presidente da Câmara, Pedro Duarte, à trilogia cinematográfica de Robert Zemeckis, onde Michael J. Fox e Christopher Lloyd tentavam corrigir o presente manipulando o passado a bordo de um carro DeLorean movido a plutónio.

No contexto da política cultural do Porto 2026, o “DeLorean” é o próprio Município, e o combustível não é o metal transurânico radioativo, mas sim o “legado transformador” de uma efeméride que, um quarto de século depois, continua a ser a principal âncora de identidade da cidade moderna.

A proposta, revelada esta terça-feira pelo vereador da Cultura, Jorge Sobrado, no espaço Entre Quintas, no Porto, assenta na premissa de que a memória não é um arquivo estático, mas “matéria orgânica viva, que nunca se extingue, como um vírus”.

O conceito da celebração é existencialista: a ideia de que o que aconteceu em 2001 não acabou em 2001, mas sim que “abre portas a responsabilidades” que moldam a nossa realidade social e económica atual.

Ver o futuro até 2036

No detalhe das nove iniciativas concretas – quase todas sublinhadas com a expressão de Sobrado “programa a revelar brevemente” -, o cartaz tem uma ambição de capilaridade urbana. O fórum “PORTO. Regresso ao Futuro: 1996 – 2001 – 2026” reunirá no dia 20 de fevereiro, na Casa da Música, figuras tutelares como Pedro Burmester, Teresa Lago, Manuela de Melo ou Ricardo Pais, num esforço para cartografar o arco temporal que transformou o Porto de cidade cinzenta em epicentro cultural. O futuro será projetado num arco até dez anos.

O plano vai além do debate teórico. O projeto “Biblioteca infinita” assume-se como um exercício literário e artístico de escala: 25 escritores e 25 artistas são desafiados a criar, com infinidade e utopia, narrativas sobre os 25 anos da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, edifício que é, em si, símbolo perene da Capital da Cultura.

Há odisseias no Batalha

Em maio, no Batalha Centro de Cinema, a iniciativa “Odisseia nas imagens” funcionará como um espelho retrovisor cinematográfico, projetando filmes rodados na cidade e comissariados originalmente pelo Porto 2001 – há obras de autores como Oliveira, Godard, César Monteiro ou José Miguel Ribeiro -, devolvendo aos portuenses a imagem de si mesmos captada no virar do milénio.

A música, pilar dourado de 2001, regressa com uma “edição especial expandida” dos Concertos da Avenida e uma performance da Orquestra Sinfónica do Porto na Casa da Música, a 8 de maio, reforçando a ideia de que as instituições criadas ou impulsionadas há 25 anos são hoje a espinha dorsal da cidade.

O cartaz de festejos inclui também “uma grande exposição” dos arquivos da Capital Europeia da Cultura, com Rita Roque como curadora, que exibirá “arquivos videográficos e sonoros”, convocando a “uma reencarnação sobre a matéria orgânica que é a memória”, disse Sobrado. Parte relevante das iniciativas integrará a proposta global de programação do “MALHA Porto, património de pessoas”.

Casa Forte para os tesouros

O aspeto mais pragmático deste regresso póstero foca-se na regeneração. O plano prevê sanar “patologias estruturais da Antiga Casa da Câmara”. E será criada uma “Casa Forte” na Biblioteca Almeida Garrett, para “salvaguardar tesouros das bibliotecas municipais”, disse Jorge Sobrado. Esta obra custará meio milhão de euros e arranca ainda este ano.

Aposta-se ainda na “rede de centros de criação para o tecido cultural independente” e na expansão de eixos pedestres nos “Caminhos do Oriente”, replicando o sucesso dos “Caminhos do Romântico”.

A celebração é um exercício de manutenção da alma urbana: a consciência de que, para saber para onde vamos, precisamos de polir o espelho do que fomos.

Ao contrário do filme de Zemeckis, onde a viagem no tempo visava evitar catástrofes, o “Regresso ao futuro” do Porto 2026 parece ser um esforço para garantir que a semente de 2001 não se torne apenas um topónimo – embora a atribuição do nome “Porto 2001” a um espaço da cidade esteja prevista: “Esperemos que seja uma avenida ou um largo e não uma rua sem saída”, disse, entre o riso, Jorge Sobrado.

No fim, maximalista e exultante, o vereador concluiu: “O Porto em 2001 viveu acima das suas possibilidades culturais – e quer continuar a viver”.