Cineastas no exílio marcam competição de Cannes

Foto: Clemens Bilan/ EPA
Quase um terço dos filmes a concurso são feitos fora do país do realizador.
Não é de todo uma crítica. Todo o artista tem total legitimidade para exercer a sua atividade criativa onde bem quiser. É um outro aspeto da diversidade. Mas há uma constatação, que pode resultar de uma tendência. É que praticamente um terço dos filmes que concorrem à Palma de Ouro de Cannes são produzidos e filmados fora do país dos seus realizadores.
As razões são várias, indo dos exílios involuntários aos convites de produtores de outros países para que cineastas consagrados continuem aí as suas obras ou pelo menos o tentem uma vez. As condicionantes das coproduções entre vários países também ajudam, com a necessária utilização de meios locais de cada país envolvido a levar por vezes a que a contribuição de um deles tenha a ver com a localização das filmagens.
Na década de 1980 inventou-se a expressão de “pudim europeu” para designar, de forma intencionalmente pejorativa, filmes que tinham de acumular atores ou técnicos de vários países para garantir os respetivos financiamentos. Estava-se ainda numa fase embrionária das coproduções entre mais de dois países e as coisas não se passavam de forma ainda muito orgânica.
Em Cannes, verifica-se claramente um outro fenómeno, o de um certo “colonialismo” do cinema francês, que mete dinheiro em quase tudo o que mexe no chamado cinema do mundo. Uma entidade como a Aide aux Cinémas du Monde distribui várias vezes por ano muitas centenas de milhares de euros para projetos sobretudo de países com cinematografais mais frágeis, mas também para autores consagrados que porventura não teriam tanta necessidade desse apoio.

Foto: Anna Kurth/ AFP
É o caso de Ryusuke Hamaguchi. O cineasta, que não podia ser mais japonês, foi convidado por um produtor francês para fazer um filme em França, deslocando a história de “Soudain” do seu país para território francês e usando Virginie Efira, que por acaso é belga, como uma das atrizes principais. Saindo da competição, é o mesmo caso do imensamente romeno Radu Jude, convidado por um importante produtor francês para aqui filmar, surgindo assim a sua versão de “Diário de uma Criada de Quarto”, exibido na Quinzena de Cineastas.

Cristian Mungiu (Foto: Julie Sedadelha/ AFP)
Outro cineasta romeno, com uma obra consagrada a temas ligados ao seu país, Cristian Mungiu foi à Noruega filmar a integralidade de “Fjord”, embora aqui a família que vive o seu drama no país nórdico é de origem romena.
Caso diferente é o de Asghar Farhadi, de que já passou, sem deixar grandes memórias, o drama francês “Histórias Paralelas”. O iraniano, que fez no seu país um filme brilhante, “Uma Separação”, resolveu exilar-se no Ocidente, onde tem continuado a sua obra. O húngaro Laszlo Nemes também vive há alguns anos em Paris, não sendo de todo surpreendente que se tenha atirado a um herói nacional francês em “Moulin”, sobre o chefe da resistência à ocupação nazi, Jean Moulin.
Por seu lado, a alemã Valeska Grisebach entra em território búlgaro para assinar o drama desconcertante “The Dreamed Adventure”. Embora produção polaca, “Fatherland”, de Pawel Pawlikowski, que fala precisamente de nacionalidade, aborda o regresso à Alemanha natal de Thomas Mann, após o final da guerra e um período de exílio nos Estados Unidos, descobrindo o seu país dividido em dois.
Finalmente, aguarda-se ainda o regresso à atividade do russo Andrei Zviagintsev, que vive agora fora do seu país, não podendo aí filmar o seu novo drama, “Minotaur”, precisamente uma digressão sobre a grande burguesia russa. Estão assim os caminhos do cinema, nos tempos que correm.