Mondego “com risco claro” de diques colapsarem: Coimbra retira três mil pessoas

Foto: Paulo Novais/Lusa
A Câmara de Coimbra vai retirar entre 2800 a 3000 pessoas das suas casas pelo risco de cheias no Mondego, disse, esta terça-feira, a presidente do município, Ana Abrunhosa.
“Globalmente, nós estamos a falar de cerca de 2800 a 3000 pessoas que são residentes, mas muitas pessoas até já saíram, foram para casa de familiares”, disse a autarca, em conferência de imprensa no edifício da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), em Coimbra, explicando que a decisão é feita de modo preventivo.
Face ao risco de inundações numa parte do concelho, todas as escolas das freguesias de Santa Clara e Castelo Viegas, São Martinho do Bispo, Ribeira de Frades, Taveiro, Ameal e Arzila estarão encerradas na quarta-feira. Além da retirada das pessoas, foram já iniciadas as evacuações de três lares de São Martinho do Bispo, acrescentou a autarca.
A decisão surge face à sinalização pela APA de risco de rebentamento de diques da obra hidrográfica do Mondego, tendo sido comunicada após uma reunião entre os autarcas de Coimbra, Soure, Montemor-o-Velho e Figueira da Foz, o presidente da agência, Pimenta Machado e proteção civil regional e local. “Temos todos os meios, estamos a atuar com muito tempo”, vincou.
Segundo Ana Abrunhosa, serão retiradas pessoas de localidades da zona ribeirinha de Torres do Mondego e Ceira (zona de concentração: Casa do Povo de Ceira), da zona de São Martinho do Bispo (Escola Inês de Castro) e Ribeira de Frades, Taveiro, Ameal e Arzila (Escola de Taveiro).
Alimentação, equipas médicas e fuzileiros
Apesar de haver ordem de retirada que abrange cerca de três mil pessoas, Ana Abrunhosa explicou que em geral “25% das pessoas é que usam estas zonas de concentração e apoio à população”.
De acordo com a presidente da Câmara de Coimbra, a GNR e PSP “vão começar [hoje] a bater à porta das pessoas” e pedir-lhes, “com tranquilidade”, para se dirigirem para os locais indicados, onde haverá alimentação, viaturas médicas e profissionais para prestar apoio.
O município tem à disposição meios das juntas, botes e carros dos bombeiros, autocarros dos Transportes Urbanos e lugares de estacionamento para as pessoas deslocadas. “Não faltam meios. Temos o Exército, temos os fuzileiros, temos os nossos bombeiros, temos a GNR, temos a PSP, não faltarão meios nem pessoas para vos apoiarem”, vincou.
Ana Abrunhosa realçou que na manhã de quarta-feira prevê-se que chova com “muito mais intensidade”, estando o município a preparar-se para o pior cenário apesar de esperar que, em breve, as pessoas possam regressar a casa e “isto não passe de um susto”.
Os utentes dos lares que não foram retirados para casas de familiares estão a ser dirigidos para o Pavilhão Mário Mexia, esclareceu.
A autarca recordou ainda que na reunião foi realizado um telefonema com a ministra do Ambiente, que foi ao encontro das posições dos autarcas. “Disse que, no nosso lugar, não ponderaria duas vezes”, afirmou Ana Abrunhosa, que agradeceu à APA e à ministra que tutela a pasta, “que tem estado sempre presente e sempre com a sua ponderação”.
Risco de colapso dos diques
O rio Mondego está com “um risco claro dos diques [margens]” poderem colapsar e provocar inundações face às previsões de forte precipitação, afirmou hoje o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA).
“Há aqui um risco claro dos diques poderem colapsar. Em nome da precaução, o que é fundamental é retirar pessoas que estão nas áreas de risco”, disse Pimenta Machado, que falava numa conferência de imprensa realizada em Coimbra, no final de uma reunião de emergência com autarcas da região e proteção civil local e regional.
Segundo o presidente da APA, está prevista “uma brutalidade” de precipitação na quarta-feira, registando-se “dois dias em que chove 20% do que chove num ano”, referindo que a situação será monitorizada e acompanhada durante toda a noite. “No fundo, perceber se temos condições de que aqui no açude de Coimbra nunca seja ultrapassado o valor dos dois mil metros cúbicos por segundo [m3/s], que é o valor para o qual os diques foram dimensionados”.
Pimenta Machado salientou que, neste momento, “muita água foi ao rio Ceira, à Ribeira de Mortágua, ao Mondego, ao rio Dão”. “É impressionante”, notou, considerando que se está perante uma situação “verdadeiramente excecional”, com níveis de precipitação elevados depois de “três semanas de tempestades sucessivas que pressionam as infraestruturas”.
Para o presidente da APA, a situação “é muito complexa e difícil”, sendo essencial atuar de forma preventiva e retirar as populações das áreas de risco de cheia. De acordo com Pimenta Machado, ainda há algum “encaixe” na barragem da Aguieira, a montante da ponte-açude de Coimbra, salientando que houve um trabalho de preparação anterior.